27, janeiro, 2010

Aluguel

Sendo filha de um autônomo do mundo imobiliário, a palavra “aluguel” sempre me foi familiar. Ao longo da vida, passei a acreditar que aluguel só é bom para o senhorio (palavra que adoro em inglês, “landlord”, com suas implicações feudais). Quem aluga se dá mal, essa é a verdade. Claro que como estou no lado negro da força, nunca me importei com a outra parte.

Acontece que, há quase seis meses, convivo com um inquilino mal encarado, mau pagador e vingativo. Descobri em agosto do ano passado que meu ovário esquerdo abriga muito gentilmente um folículo enfezado, agorafóbico e portador da síndrome do pânico que se recusou a ser expelido durante o ciclo menstrual. Além de tudo padece de obesidade mórbida. O morador de ovário tem 7 centímetros de diâmetro e 149 centímetros cúbicos de volume, o que fez com que o teto que lhe acolhe ficasse maior do que meu útero. Tinha que ser o esquerdo, gauche na vida, não liberal. Cara, se meu ovário esquerdo pudesse falar, ele  já tinha se gabado de ter alcançado esse estrondoso tamanho através de um próprio Programa de Aceleração de Crescimento (PAC). Já tinha sacaneado o ovário da direita, mandado aquela velha de que “tamanho é documento, sim. Nós fizemos esse ovário crescer”. Tudo na vida, meus caros, converge para a política.

A primeira tática de despejo foi chamar a Diane. Diane 35, como gosta de ser chamada, é conhecida pela composição abrutalhada de hormônios. Diane é a bombada das pílulas. No começo, Diane me fazia passar um mal danado. Acho que ela se sentiu sozinha e chamou vários Raúls. Despois Raúl foi-se embora e achei que o pior passara. Mas Diane é arretada, gosta de aparecer. Apareceu na minha cara. Em poucos dias, milhares de bolinhas brancas purulentas começaram a nascer no meu rosto. Primeiro, não entendi, atribuí ao calor o aumento da oleosidade da pele. Mas depois fui juntar os cacos e me toquei que nem mesmo com a mudança climática, com o El Niño e o escambal, as “erupções cutâneas” – raríssimas, segundo a bula – cederam. Pelo visto eu também sou raríssima e a dermatite encontrou seu par. Desculpe se estou provocando o seu asco, mas desabafar é preciso.

Raivosa e bufante pela acne que não é minha, passei a circular pela cidade como uma burra velha que pegou sarampo, catapora, malária, varíola, o que seja. Cheia de manchinhas vermelhas na testa, vaguei em vão na busca de um antídoto que me salvasse. “É um efeito menor, você precisa ter paciência”, me disse a cretina da ginecologista. É porque não é na cara dela. Queria ver como ela se sentiria se acordasse todo dia parecendo um Chokito. Pimenta no reto dos outros é refresco, alguém disse sabiamente. A médica ainda vai e me passa um sabãozinho “para aliviar a oleosidade”. Sabão a senhora passe para a senhora sua avô, mulher. O que eu quero é ácido! Ácido! Não rolou.

Não satisfeita em acampar no meu rosto, as bolinhas desceram para o meu colo e para as minhas costas. Agora o jeito é usar burka completa, daquelas que só têm o visor de telinha. Meu Branco adorou. Achou exótico.

Diane também me deixou mais afetada na famosa tpm. Dei pra chorar com desenho animado, reclamar mais do que o habitual e descontar tudo no Branco. Um dia, em um acesso de melodrama, comecei uma briga dizendo que ele não estava nem aí para o meu quadro clínico seríssimo (debilóide, com certeza) e que ele só pensava nele e patati, patatá. “Amor, você está prestando atenção no que está dizendo?”, ele interrogou, incrédulo. “Não me interessa o que eu estou dizendo”, respondi, sem pensar, obviamente. Perdi o interesse em mim mesma, pelo visto. É o ápice do drama queen.

Depois de muitas ecografias transvaginais. Não, espera. Esse nome é muito bom. E o constrangimento que é ligar na clínica e marcar o exame quando você está falando em um lugar público? A mocinha da clínica só atende quando você entra no elevador com um bonitão, duas senhoras idosas e uma mãe segurando uma criança pela mão. Você tenta falar baixinho, fingindo educação, mas a ligação está ruim, ela não entende. “Eu queria uma trans. Uma trans…” Não funciona e você tem de ser mais enfática com a atendente e finalmente falar em alto e bom som: transvaginal. T-R-A-N-S-V-A-G-I-N-A-L. Todo mundo olha pra você e sabe que você não é mais virgem. É um horror.

Enfim. Muitas ecografias transvaginais se passam e o cisto está lá. Grandão, aquoso. A Diane 35 não é páreo para o petista no meu ovário. Ele é como a propaganda diz, não desiste nunca.  Resolvo que minha ginecologista não está com nada e procuro outras opiniões. Todos os outros médicos concordam que já deu de Diane e que a melhor medida é remover o inquilino na faca. Fico apreensiva já que, pela segunda vez na vida, vou pagar de louca por causa do efeito da anestesia e soltar a verborréia na sala de cirurgia. Suspeito que desta vez vão me entubar sem a menor necessidade, só pela manutenção da paz e da minha dignidade no pós-operatório.

Amanhã vou fazer exame de sangue e, não sei se vocês sabem, vou viver mais um episódio de vexame ao ter sérias crises de riso. Um riso incontrolável, indomável, interno. Um riso selvagem que despertará a curiosidade ou talvez o mais profundo desprezo do enfermeiro. Mas olha,  qualquer coisa é melhor do que as perebas, os Raúls, as Dianes e os cistos esquerdistas.

28, outubro, 2009

Odeio

Na hora, achei bonito. Um segundo diploma é raridade. Coisa chique, menina estudiosa cresce na vida. Estou aqui para desmentir a mim mesma e dizer que eu só invento furada. Exercendo o poder da minha inteligência macedônica, escolhi uma segunda profissão que paga pior que a primeira e que cujo diploma acabou de cair.

Então, além de ter esvaziado em vão os cofrinhos por anos, estou acuada pela SEGUNDA vez em um trabalho de conclusão de curso que está mais concluindo a minha vida – yeah babe, drama queen – do que a faculdade.

Pela incompetência de seguir calendários, estou pagando com um rim e padecendo da extinção da paciência comigo mesma. Vai, desgramada, inventa. Quer fazer pós? Mestrado? Doutorado? Enlouqueceu? Comeu fezes?

Odeio ter que olhar pra esse computador. Odeio ter que dispensar convites para uma cerveja que me fará passar mal. Odeio não ver meu homem Branco, minhas amigas nextputas. Odeio sonhar que reprovei. Odeio a obrigação. Odeio minhas ideias que me arruínam. Odeio os cdfs que adiantam trabalho e me deixam numa posição difícil. Odeio não poder redigir em primeira pessoa em um trabalho que ME custou tempo e cigarros. Odeio citação superior a quatro linhas recúo de 4cm fonte 10. Odeio a hora que passa e as linhas que não se escrevem. (Por fim, odeio minha preguiça, que me trouxe até aqui.)

No começo, é tudo perspectiva. No final, é olheira, cafeína e ABNT.

Voltei de Cuba, mas acho que vou ter que ir pra onde o Diabo me carregue mesmo. A esse ponto, só ele pode me salvar.

E Deus que me perdoe.

11, setembro, 2009

222 e um bicho chamado Arlindo

Recebi o resultado do exame de sangue. Digitei confiante o protocolo e a senha.

Abri o arquivo (é tão estranho não ir buscar o exame. A cotação do seu sangue já está disponível online).

Glicose, bom. Ureia, bom. Creatinina, bom. Perfil lipídico. Vamos lá, gordinha. Colesterol. Colesterol… Colesterol. Não. Não quero falar sobre isso.

De repente, me senti cabeça branca aos 73 anos, confrontada com o horror de tomar água de berinjela em jejum e imiscuir linhaça em tudo o que como. Leite com linhaça. Café com linhaça. Batata rosti com linhaça. Fiquei deprimida.

Meu colesterol está junto com o Expresso do Gilberto Gil: 222. Taxativamente ALTO.

Como não entendo direito – não entendo nada, na verdade – de biomedicina, liguei para uma amiga sagaz em linfócito, hemácia, o diabo a quatro. Não foi alentador. Foi horrível. Avisei que antes de entrar em jejum, eu comera chocolate e que isso poderia ser a explicação. Fui tolhida imediatamente. “Não, isso não explica”, sentenciou. “Você come muita carne vermelha. E come porcaria, não é? E café expresso nunca é o suficiente pra você. Eu sei , te conheço. Ihhhh.” Não tive como escapar do malefício da intimidade. Não pude mentir. Não tive como me fazer de vítima.

Fiquei com medo de outras anomalias e decidi ler o laudo inteiro. Quando cheguei no estranho termo “Eosinófilos”, seja lá o que isso quer dizer, minha amiga confirmou que o número era muito alto e que, caso não fosse uma infecção ou uma alergia recente, explicação que gosto mais, pode ser verme. “Uma lombriga, um verminho. Qual foi a última vez que você tomou um vermífogo?” Nunca, p*rra. Sei lá. Desde que eu me lembre, nunca parei na farmácia e pedi um mata-lombriga, que coisa mais rural.

Então, além de alerta vermelho, roxo, alerta preto para o colesterol, tenho verme?

Assustada e com fome (são quase meia-noite), reprimi o choro, ignorei os gritos do meu estômago – que na verdade deve ser a voz do Arlindo, minha tênia - e preparei um chá verde. Quando abri a geladeira, vi uma berinjela. Era um sinal.

Meu irmão depois veio me contar que no ímpeto de comer todos os pães, frios e queijos da Itália, meu pai quebrou um dente fronte-lateral e apareceu banguela no vídeo. Somos todos da roça.

Mundo Arrogante.

26, agosto, 2009

Umidade, sua estranha

É agosto. Um agosto qualquer que começou fiel à promessa de secura irrevogável e dermes em erosão. Tudo certo, Brasília. Você está acostumada a passar esse mês inteiro distraída com a imagem das comportas se abrindo em outubro.

Não. Não pode ser. O tempo passou e eu não vi. Por que diabos de asas chove há três dias? Se você é de fora e está em Brasília por um motivo que não me interessaria de qualquer maneira, não entende a cara de espanto de quem já escorreu tanto sangue pelo nariz. As pessoas ficam olhando a água que cai fora de hora e ninguém entende nada. Boquiabertas. Vira motivo de conversa pequena. Do botequim às celas de prisão, todo mundo solta um comentário. Todos são iguais.

Tem gente que adota uma postura neohippie de que “a água do céu é uma benção, bicho”. Uma amiga viu um coitado fazendo jogging na rua, todo ensopado o lazarento, e mandou um mal recebido “olha que delícia, correr na chuva”. O tipo mão-de-vaca aprecia a precipitação já que não vai ter de molhar o jardim e com isso reduzirá em 0,06% a conta de água.

Eu, sabe o que eu penso? Penso que agosto é um momento estético relaxado em que não preciso me preocupar em domar o guaxinim que brota do meu couro cabeludo mais de uma vez por dia. Você escova o cabelo e  ele fica. É a época da estática. Eu penso que quando chove inesperadamente, meu guarda-chuva providencial não está no porta-malas porque papito querido tem toc e sempre manda tirar as “tranqueiras” do meu carro. Fui a um evento ontem e a noite estava propensa às ventanias típicas de antes da chuva. O povo estava do lado de fora esperando a próxima banda começar e a última cerveja terminar quando começou a rajada. Nós, as mentirosas, temos um radar, um sensor automático de pingos.  Pode ter caído uma gota a 32 metros de distância, a gente sente. Nosso rosto muda. É o medo.

Logo, as mocinhas de cabelo ruim se levantaram em pânico para a fresta minúscula de cobertura. Eu estava puxando o coro, meu amigo. Uma amiga definiu bem: somos escova-dependentes.  E nosso hino é aquela canção emocionante do Mc Frank:

“Eu vou mandar o papo reto
essa vai para os guerreiros
que tem uma mulher que vai no cabeleireiro
gastou trinta reais sabe o que que aconteceu
Ih, choveu cabelo encolheu todinho
ih choveu cabelo encolheu

Eu vou mandar um papo reto
Gatinha ve sê me escuta
se você fez escova vê se leva o guarda-chuva
ô não tô de caô, gata não tô de gracinha
se você fez implante, alisante ou chapinha
tome muito cuidado sabe o que que aconteceu
ih choveu cabelo encolheu todinho
ih choveu cabelo encolheu”

Eu penso que as chuvas duradouras e o céu bravo dessa semana agostina é mais um prenúncio do fim dos tempos.

E nós, nós somos as pretinhas bonitinhas do cabelo de henê.

Mundo Arrogante

14, agosto, 2009

O maiô de Varadero

Acontece sempre comigo, não sei de você. Cada vez que agendo uma viagem deliciosamente tropical, tudo o que precede a partida é um sentimento misto de felicidade alucinada pela iminência da praia e o terror das duas partes. A parte de baixo e a parte de cima do biquini. Obviamente que o agente Freddy Krueger é o recheio entres as peças.

A síndrome do Bikini, como acabo de nomear, consiste em um trauma bastante comum entre as mulheres, em especial as brasileiras. Os principais sintomas são os seguintes:
- Coceira e sudorese ao passar por vitrines de lojas de roupas de banho;
- Possível ataque cardíaco caso decida experimentar um modelo, depois de ser atendida por uma vendedora magra e saltitante que jura por Deus – e claro, pelo Diabo – que esses trapos minúsculos e humilhantes ficam bem em todo mundo, ela mesma têm dois;
- Alergia a qualquer tipo de exercício físico sob alegação de intensa fadiga e histórico de infartos na família (toda mãe já provou um biquini também);
- Mania de dizer que prefere o inverno: “Todo mundo fica mais chique”;
- Insônia na véspera de uma “pool party”. No dia, vai à festa e diz pro musculoso inquisidor que não vai entrar na água, que, segundo ele está “uma delícia”, porque está menstruada.

Estou com viagem marcada para Cuba em outubro. Estamos em agosto, o que significa que de forma nenhuma, nem se participasse do Extreme Makeover Revival eu estaria em forma daqui a um mês e meio. No momento em que decidi embarcar rumo ao colo do Fidel, lamentei cada batata frita, cada gordura trans, cada frango à passarinho que ingeri nos últimos 24 anos. Cara, lamentei o leito materno.

Tentei traçar uma meta semi-espartana de pelo menos não parecer tão nutrida, perder umas bochechas. Por sorte, minha parceira rumo à Havana é tão preocupada em exibir seu catupiry brasileiro no exterior quanto eu. A diferença entre nós duas é que, enquanto ela jura (erroneamente) que está com braços de lavadeira do Algarve, eu reconheço que já sou a lavadeira e conto até meu pseudônimo quando esfregando calçolas em Portugal: Meria di Fatma. Você vai negar, Rita, mas eu sei das coisas, você não. As duas portadoras da síndrome ficam, então, ameaçando uma a outra. “ÓÓÓÓ o maiô de Varadero.” Perco a vontade, juro que perco.

As mazelas de quem faz dieta são mundialmente conhecidas, bobagem falar delas. Mas esses dias passei por um aperto comum. Fui à lanchonete do trabalho dar umas dentadas em uma barra de ceral e tomar um suco com adoçante – uou, living la vida loca – quando meu olhar pousou sobre uma coisa dourada reluzente. Brilhava pra mim. Era um saquinho de amendoim japonês. Babei instantaneamente e me detive na imaginação de como meus dentes mastigariam com prazer aquelas bolinhas diabólicas. . “ÓÓÓÓ o maiô de Varadero.” Força! Paguei meu lanche boçal e fui embora. Esse saco de amendoim me atormentou o resto do dia. Voltei pra casa pensando nele, como se fosse um namorado novo.

O momento de ir comprar o biquini vai chegar. E vou suar feito uma condenada porque de fato estarei condenada a desprestigiar a fama de gostosa das brasileiras nas lindas praias paradisíacas de Varadero. Na praia, ninguém quer saber se você é inteligente. O Diabo que carregue os bilíngues, os vernáculos, os especialistas. Que carregue de luva os flácidos e os peludos.

Eu sempre achei maiô uma coisa chique. Juro por Deus e o Diabo que me carregue também.

Pensando bem, outubro seria uma ótima época para a temporada de tufões.

Mundo Arrogante

16, julho, 2009

(sem título, sem texto, sem nada)

Eu quero chorar. De novo essa tela branca e tudo o que eu preciso escrever é o avesso. No sábado, será aniversário de Nelson Mandela e eu bem poderia usar um pouco da inspiração do melhor ser humano vivo. Nada. Não me vem nada.
Mentira. Vem uma vontade de juntar as tralhas e sair daqui sem ninguém ver. E nunca mais voltar. Jogo o crachá pela janela do carro. Troco de número, me mudo para outro lugar. Fujo. Digo aos outros que me chamo Catarina de Médici, fico tachada de louca profana. Mesmo agora, falando do meu próprio desespero, empaco no teclado porque a fonte secou. Esvaziei.
Redações são ambientes esdrúxulos. Toda hora todo mundo fala tudo. Não é um burbinho, é uma risada escandalosa do outro lado, é um grito vizinho, são duas mulheres trocando segredos, fustigando a imaginação dos companheiros intrinsecamente curiosos, logo jornalistas. É um vídeo engraçado no Youtube, junta gente, vem ver! É um Maracanã à meia boca, mas potencialmente barulhento. Não me concentro.
Você já ouviu falar em demissão de estagiário? Eu também não. É uma pena, porque já exauri minha imaginação atrás de uma justa causa. Justa causa como a do Mandela, que fica girando e rodopiando na minha cabeça, mas não cria forma. Não se escreve. Fica abstrata, como deve estar a minha cara agora. Também nunca vi uma expressão de rosto abstrata. De justa, fiquei só com a saia. Não é justo.
Daqui a pouco vou me repetir, buscar um café intragável como de hábito por aqui e me consolar com um cigarro. Não, ele não vai me curar, nem me ensinar a jorrar texto. Ele vai queimar seco e constante, os tragos serão ruins. Vou pisá-lo com raiva e virar as costas. Subirei as escadas vagarosa, uma vez mais temente à Deus e ao teclado.
Amanhã é sexta e eu vou ter de entregar alguma coisa. Entrego a minha cabeça. Dei a vida por uma causa. Uma justa. Gangrenou.

Mundo Arrogante

12, julho, 2009

Silêncio

Não pode existir nada pior nem mais irritante do que tentar descansar e não conseguir. Isso em hipótese alguma é um devaneio ou uma pergunta retórica. É uma afirmação. Sei disso porque eu sou a perturbada mor. Ninguém em todo o universo – marcianos e outros galácticos incluídos – consegue acumular tanta perseguição quanto eu. Eu ainda vou descobrir se alguma empresa de construção civil é patrocinadora aqui da rua porque juro que reforma é a palavra de ordem do momento. Começou com meu tio e vizinho. Durante quatro meses, o horário de acordar era quando qualquer pedreiro vinha despejar seu dialeto peculiar aqui debaixo da minha janela, pronto para acionar sua britadeira e outros brinquedinhos diabólicos a qualquer momento. Irmão é uma coisa de louco. Logo meu pai se animou e pimba!, silêncio se tornou uma quimera e nem começo a falar sobre privacidade. Quando a situação ficou insustentável e me mudei para a casa de uma amiga, sabe quem resolveu rebocar parede? O vizinho dela. O meu quarto gentilmente emprestado era o único que escutava as rodinhas do carrinho de mão. Isso é só o começo, uma contextualização, caso você não conheça o ambiente esdrúxulo das coordenadas geográficas do meu teto.

Tenho vizinhos absolutamente maníacos. Acho que tem um novo morador de um conjunto mais acima que está tão animado em ter uma casa, que dá festas dia sim, outro também. Ainda que eu partilhasse do seu gosto musical, me incomodaria. Mas esse cara é um ás do trance. Incansável. A única saída que encontro é socar tampões de espuma na orelha até coçar os miolos. Suspeito que esse hábito cada vez mais freqüente esteja alargando meu ouvido interno e isso não pode ser bom.

Como se pessoas não atrapalhassem o suficiente, elas trazem consigo animais. Não entenda errado, sou uma grande entusiasta do mundo animal e detesto maldade contra bicho. Mas pelo amor de Alá, os que vivem por essas bandas são anormais. Todos sofrem de transtorno obsessivo compulsivo. Se latem uma vez, latem para sempre. É como se fosse inaceitável interromper a repetição. Eles também são médiuns. Latem para almas penadas, mais conhecidas como v-e-n-t-o. Dizem que cachorro aprende rápido, mas começo a achar que isso é balela. Pelo menos aqui a teoria é só uma conspiração. Nenhum cachorro tem memória. Todos os dias, o caminhão de lixo passa no mesmo horário fazendo o maior barulho por si só, e toda vez é uma polvorosa. Qual é, eles já deveriam ter se acostumado. Aí, mesmo quando o SLU já se mandou, os latidos não param porque, como você acabou de saber, os cachorros têm toc. O Juca, o mais novo quatro patas da rua, tem todos os problemas agravado por um distúrbio de personalidade bem peculiar. Ele tem certeza absoluta que é a Mariah Carey. É como se ele latisse pra se fazer entender entre golfinhos. Já falei que ele mora exatamente em frente ao meu quarto? Não dá.

Às vezes, eu acho que o meu conjunto é uma amostragem de cidade do interior, como se o IBGE tivesse delimitado a rua como um universo para estudar hábitos provincianos resistentes na cidade grande travestida que é Brasília. Pelo menos duas vezes por semana, o cara das panelas vem nos visitar. Ele não é tímido, não, muito pelo contrário. Ele chega pomposo na sua Quantum mil novecentos e guaraná de rolha equipada com um som potente que dissipa sua voz de locutor frustrado. “Alô, alô, minha amiga dona de casa. Consertamos panelas, trocamos cabos, devolvemos o brilho do alumínio…”   Diga-me com quem consertas tuas panelas e te direi quem tu és. Quem, eu pergunto, quem no mundo de hoje não pode ir à loja arrumar a merda da panela? Eu vou tocar a campainha de casa em casa perguntando quem é o infeliz que se fez clientela do doidão do alumínio. Há um tempo atrás, minha mãe acordou desesperada às oito da manhã de um sábado porque escutou alguém chamando por ela incessantemente. “Olgaaaaaaa. Olgaaaaaaa.” Quando ela chegou na varanda, se deu conta do engano. Viu um caminhão apinhado de botijões ofertando “Ó o gááááááááás. Ó o gááááááááás”. É verdade.

Eu confesso que sou uma chata. Em outros tempos, joguei gelo nas crianças (elas têm um lindo jardim carpetado com grama bem tratada, não se usa mais brincar na rua), já acordei de madrugada parecendo Gal Costa depois da bruxaria para repreender uma vizinha (a dona do Juca, adoro essa família) porque ela queria “bater papo” com um paquera às quatro da madruga em frente ao portão. Ultimamente, me amansei. Simplesmente acordo e mudo de cômodo. Quando o barulho é onipresente, como quando o meu pai mandou reformar a calçada da frente e limpar com aquele adorável jato de água (“fulmina sono”, apelidei) as pedras da varanda dos fundos, me resigno ao despertar coagido e ocasionalmente choro um pouco, depois passa. Porém, recentemente perdi as estribeiras e taquei um ovo num jardineiro alheio porque ele ignorou meus pedidos anteriores – e educados, palavra – para abaixar o som no fim de semana enquanto ele lavava o carro. Desta vez, depois da resposta insolente e cretina que recebi, fui às raias da loucura e joguei o ovo. O maldito desviou feito o Bush do sapato. Meu pai zangou-se como Zeus, tivemos rusgas familiares interessantes envolvendo algum grito, resmungos empapuçados de choro da minha parte e a acusação injusta de me comportar como favelada, sem falar no desperdício. Uma tragédia grega.

Com a gritaria, um monte de gente acordou. Quando saí de casa, notei os olhares de reprovação dos vizinhos. Eles, assim como eu, também estavam com olheiras. Dormiram pouco. Pimenta no dos outros é refresco, já dizia algum desbocado da minha família.

Mundo Arrogante

19, junho, 2009

Empacotaram minha dignidade na mudança

Tudo bem ser estagiária. Eu não ligo. Até aproveito ter menos responsabilidade enquanto dá. Mas pertenço à mesma espécie que os demais na redação, por isso esperava um pouco mais de respeito. Explico.

Com as modificações no jornal, não foi só o projeto gráfico que mudou. Resolveram por bem alinhar as editorias em uma nova arquitetura da redação, reorganizando quem estava exilado da sede editorial por falta de computadores adjecentes etc. Outras pessoas foram contratadas, é peremptório uma nova ordem mundial aqui dentro. Antes dessa zorra, minha mesa era convenientemente localizada no centro do salão, ventilada pela janela que – apesar da película opaca 100% – me rendia uma vista da imensidão do lado de fora. Eu entrava pelo Mundo, em um vão amplo e livre.  Com um giro de 360º com a cadeira horrorosa e vilã da colunha vertebral, mas minha, podia papear e chatear Deus e o Mundo.  O panorama da bagunça deliciosa que as redações fazem quando estamos no meio do dia era possível só de levantar. Meu caráter matraca encontrava vazão na vizinhança e enquanto escrevia sobre mais um escândalo do Berlusconi, podia atentar as pessoas em volta e rir. O Esporte ficava ao lado, eu podia ver todos os jogos e não ser considerada pilantra por isso. Eu era feliz e não sabia.

Agora, me vejo enfurnada em um canto recôndito, ao lado de um armário que simboliza o Muro de Berlim e me separa do resto da editoria. Minha placa de entrada é a de Economia e o único número que sei de cor aqui é 1 pilastra transversal tom laranja tenebroso que bloqueia parcialmente a a entrada do pedaço que me cabe desse latifúndio. Acabou o meu direito de ir e vir. Não posso me exaltar muito porque corro o risco de contrair um edema cerebral certamente mortífero se errar o arraste espontâneo da cadeira e der com a cuca nesse tubo de metal alaranjado. Se for pra frente, há um degrau na mesa e um travessão se desenhará no meio da minha testa que não deve valer muito, já que estou no fundo do quintal. Não bastasse a humilhação de uma matiz que detesto, herdei um monitor com um adesivo do Snoop que não me pertence e que está melecado pela idade avançada do adesivo. Este teclado em que sangro a minha exclusão está tão empoleirado e craquelento que tenho de checar duas ou três vez por quarto de hora a situação das minhas unhas. Posso começar a desenvolver uma alergia a qualquer momento e quem me conhece sabe da minha saúde débil. Pilhas e pilhas de papeis e revistas de quem era o inquilino anterior desse cafofo suburbano bloqueavam todo o espaço da mesa e não só tive de retirar a trancada de coisa como tive de limpar a imundície renitente descoberta ao esvaziar a mesa.

Levaram meus amigos pra longe, roubaram minha cadeira, empacotaram minha dignidade. Fiquei prostrada em Berlim Oriental. Escuto risos do outro lado e não sei qual foi a piada.

É claro, é óbvio que eu dei um escândalo. Mas ninguém se importa porque eu sou a reles. Então fica no canto, diaba, assim ninguém precisa olhar pra sua cara inexperiente.

Acho que vou pedir asilo.

Mundo EXTRA Arrogante

8, abril, 2009

Rapidinho

Adoro as mensagens factuais que minha mãe me manda.

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26, março, 2009

O show

Peguei o setlist do show do Radiohead em São Paulo. Subitamente, sinto aquela melancolia pós-show. Depois que deixei aquela chácara, sem Thom Yorke a tira-colo e com um pé torcido, o cenário é de uma ambivalência inacreditável. Sinto o privilégio de ter sido platéia do espetáculo – o maior que já vi e, pelo que ouvi, o que muita gente viu. Agora minha vida mudou e já não sei se vou conseguir gostar de outros shows. Se você não foi e acha que estou exagerando, tudo bem, é um direito seu. Mas você está errado.

Não fui à Chácara do Jóquei fantasiada. Não tenho nenhuma camiseta da banda e não pretendo ter. A única camiseta musical a que me dei o luxo foi a que estampa a imortal boca dos Stones e nenhuma outra é ou será mais legal que essa. Tão pouco sei todas as letras do Radiohead ou conheço todas as músicas. Não quis ver vídeos de outros shows, nem ler críticas sobre as outras apresentações na América Latina. A única coisa que eu sabia antes de ser testemunha ocular e que não tive chance de escapar de saber era que o show do México havia sido impecável. Não sou histérica se escuto uma música deles vinda do carro de outra pessoa. Não sei o nome de todos os integrantes. Mas o que gosto, gosto. Quis entrar pura, quis ser surpreendida. Foi exatamente o que aconteceu.

Um amigo querido que me hospedou em São Paulo torrou o meu saco e dos outros conhecidos que iriam pro show dizendo que todo mundo ia pra lá chorar junto (isso, Eduardo, se chama desdém). Sim, meus queridos ingleses que querem mudar o mundo têm traços de melancolia e tristeza que podem colocar o mais serelepe dos cães em quietude impressionante. Mas é sincero. Não é emo. E mais importante, não é tudo.

Quando o show estava prestes a começar, me perdi da turma que gentilmente se ofereceu como companhia e carona. Até tentei me imiscuir na muvuca e ficar mais perto. Nem Deus, que deve ser etéreo, conseguiria uma brecha. A solução que encontrei foi tentar ver o palco dos mais variados ângulos possíveis. Claudicante, badalei por todos os cantos. A cenografia era tão bonita, com tantas luzes variantes e sensíveis ao tom da música que a vista panorâmica do fundão não era nada mal.

Acho que eu e Thom temos algo em comum: somos tão baixinhos que nem se eu estivesse na cara do palco ia conseguir vê-lo direito. Então me contentei em escutar. No final das contas, é o mais importante mesmo. Nas raras ocasiões em que vislumbrei a figura dele entre sombras e cabeças que interferiam, fui arrebatada pelo frenesi da apresentação. Podem até me chamar de maria-palheta, mas o homem que tem um dos rostos mais esquisitos da música me pareceu extremamente charmoso. O entusiasmo tem uma força plástica assombrosa. Talvez se eu o visse sentado numa sala de espera de aeroporto ele não teria a menor graça e eu provavelmente sentaria até meio longe. É possível.

Vou dizer, esses caras são tão bons, que até minha avó, que diz que música do “nosso tempo” é só barulho, ia rever seus conceitos depois de ver o show e dizer que mudou de idéia. É um clique o movimento do amor para a idolatria. Acho que me tornei iconoclasta porque desde que o show acabou tudo o que consigo pensar é em como vou conseguir uma imagem de Thom Yorke. (Ainda assim, não vou comprar a camiseta.)

Cada música, cada mudança de iluminação, cada trecho que eu sabia cantar e cada verso que fui aprendendo na hora (coisa que faço muito porque quase nunca sei as letras de cor) tornaram aquela experiência de caravana solitária absolutamente indispensável. Depois de tantos anos humilhada por não ver ao vivo tantos músicos que me tocam o coração, esses eu posso falar que fui, vi e ouvi. E ver sozinha foi melhor. Não precisei me afetar pra provar o meu gosto. Pulei, berrei e me calei sem sentir a menor vontade de compartilhar. Quando existe muita gente, há também o exclusivo. Na minha cabeça, aqueles homens que eu mal conseguia ver tocavam só pra mim.

A previsão do tempo afirmava e reafirmava que o céu ia cair de tanta chuva. Coisa à toa. Veio só aquela garoa marota tradicional. O único estrondo da noite foi o Radiohead. Olhei pra cima e foi a primeira vez na minha vida que vi estrelas no céu de São Paulo.