Sendo filha de um autônomo do mundo imobiliário, a palavra “aluguel” sempre me foi familiar. Ao longo da vida, passei a acreditar que aluguel só é bom para o senhorio (palavra que adoro em inglês, “landlord”, com suas implicações feudais). Quem aluga se dá mal, essa é a verdade. Claro que como estou no lado negro da força, nunca me importei com a outra parte.
Acontece que, há quase seis meses, convivo com um inquilino mal encarado, mau pagador e vingativo. Descobri em agosto do ano passado que meu ovário esquerdo abriga muito gentilmente um folículo enfezado, agorafóbico e portador da síndrome do pânico que se recusou a ser expelido durante o ciclo menstrual. Além de tudo padece de obesidade mórbida. O morador de ovário tem 7 centímetros de diâmetro e 149 centímetros cúbicos de volume, o que fez com que o teto que lhe acolhe ficasse maior do que meu útero. Tinha que ser o esquerdo, gauche na vida, não liberal. Cara, se meu ovário esquerdo pudesse falar, ele já tinha se gabado de ter alcançado esse estrondoso tamanho através de um próprio Programa de Aceleração de Crescimento (PAC). Já tinha sacaneado o ovário da direita, mandado aquela velha de que “tamanho é documento, sim. Nós fizemos esse ovário crescer”. Tudo na vida, meus caros, converge para a política.
A primeira tática de despejo foi chamar a Diane. Diane 35, como gosta de ser chamada, é conhecida pela composição abrutalhada de hormônios. Diane é a bombada das pílulas. No começo, Diane me fazia passar um mal danado. Acho que ela se sentiu sozinha e chamou vários Raúls. Despois Raúl foi-se embora e achei que o pior passara. Mas Diane é arretada, gosta de aparecer. Apareceu na minha cara. Em poucos dias, milhares de bolinhas brancas purulentas começaram a nascer no meu rosto. Primeiro, não entendi, atribuí ao calor o aumento da oleosidade da pele. Mas depois fui juntar os cacos e me toquei que nem mesmo com a mudança climática, com o El Niño e o escambal, as “erupções cutâneas” – raríssimas, segundo a bula – cederam. Pelo visto eu também sou raríssima e a dermatite encontrou seu par. Desculpe se estou provocando o seu asco, mas desabafar é preciso.
Raivosa e bufante pela acne que não é minha, passei a circular pela cidade como uma burra velha que pegou sarampo, catapora, malária, varíola, o que seja. Cheia de manchinhas vermelhas na testa, vaguei em vão na busca de um antídoto que me salvasse. “É um efeito menor, você precisa ter paciência”, me disse a cretina da ginecologista. É porque não é na cara dela. Queria ver como ela se sentiria se acordasse todo dia parecendo um Chokito. Pimenta no reto dos outros é refresco, alguém disse sabiamente. A médica ainda vai e me passa um sabãozinho “para aliviar a oleosidade”. Sabão a senhora passe para a senhora sua avô, mulher. O que eu quero é ácido! Ácido! Não rolou.
Não satisfeita em acampar no meu rosto, as bolinhas desceram para o meu colo e para as minhas costas. Agora o jeito é usar burka completa, daquelas que só têm o visor de telinha. Meu Branco adorou. Achou exótico.
Diane também me deixou mais afetada na famosa tpm. Dei pra chorar com desenho animado, reclamar mais do que o habitual e descontar tudo no Branco. Um dia, em um acesso de melodrama, comecei uma briga dizendo que ele não estava nem aí para o meu quadro clínico seríssimo (debilóide, com certeza) e que ele só pensava nele e patati, patatá. “Amor, você está prestando atenção no que está dizendo?”, ele interrogou, incrédulo. “Não me interessa o que eu estou dizendo”, respondi, sem pensar, obviamente. Perdi o interesse em mim mesma, pelo visto. É o ápice do drama queen.
Depois de muitas ecografias transvaginais. Não, espera. Esse nome é muito bom. E o constrangimento que é ligar na clínica e marcar o exame quando você está falando em um lugar público? A mocinha da clínica só atende quando você entra no elevador com um bonitão, duas senhoras idosas e uma mãe segurando uma criança pela mão. Você tenta falar baixinho, fingindo educação, mas a ligação está ruim, ela não entende. “Eu queria uma trans. Uma trans…” Não funciona e você tem de ser mais enfática com a atendente e finalmente falar em alto e bom som: transvaginal. T-R-A-N-S-V-A-G-I-N-A-L. Todo mundo olha pra você e sabe que você não é mais virgem. É um horror.
Enfim. Muitas ecografias transvaginais se passam e o cisto está lá. Grandão, aquoso. A Diane 35 não é páreo para o petista no meu ovário. Ele é como a propaganda diz, não desiste nunca. Resolvo que minha ginecologista não está com nada e procuro outras opiniões. Todos os outros médicos concordam que já deu de Diane e que a melhor medida é remover o inquilino na faca. Fico apreensiva já que, pela segunda vez na vida, vou pagar de louca por causa do efeito da anestesia e soltar a verborréia na sala de cirurgia. Suspeito que desta vez vão me entubar sem a menor necessidade, só pela manutenção da paz e da minha dignidade no pós-operatório.
Amanhã vou fazer exame de sangue e, não sei se vocês sabem, vou viver mais um episódio de vexame ao ter sérias crises de riso. Um riso incontrolável, indomável, interno. Um riso selvagem que despertará a curiosidade ou talvez o mais profundo desprezo do enfermeiro. Mas olha, qualquer coisa é melhor do que as perebas, os Raúls, as Dianes e os cistos esquerdistas.
