Não pode existir nada pior nem mais irritante do que tentar descansar e não conseguir. Isso em hipótese alguma é um devaneio ou uma pergunta retórica. É uma afirmação. Sei disso porque eu sou a perturbada mor. Ninguém em todo o universo – marcianos e outros galácticos incluídos – consegue acumular tanta perseguição quanto eu. Eu ainda vou descobrir se alguma empresa de construção civil é patrocinadora aqui da rua porque juro que reforma é a palavra de ordem do momento. Começou com meu tio e vizinho. Durante quatro meses, o horário de acordar era quando qualquer pedreiro vinha despejar seu dialeto peculiar aqui debaixo da minha janela, pronto para acionar sua britadeira e outros brinquedinhos diabólicos a qualquer momento. Irmão é uma coisa de louco. Logo meu pai se animou e pimba!, silêncio se tornou uma quimera e nem começo a falar sobre privacidade. Quando a situação ficou insustentável e me mudei para a casa de uma amiga, sabe quem resolveu rebocar parede? O vizinho dela. O meu quarto gentilmente emprestado era o único que escutava as rodinhas do carrinho de mão. Isso é só o começo, uma contextualização, caso você não conheça o ambiente esdrúxulo das coordenadas geográficas do meu teto.
Tenho vizinhos absolutamente maníacos. Acho que tem um novo morador de um conjunto mais acima que está tão animado em ter uma casa, que dá festas dia sim, outro também. Ainda que eu partilhasse do seu gosto musical, me incomodaria. Mas esse cara é um ás do trance. Incansável. A única saída que encontro é socar tampões de espuma na orelha até coçar os miolos. Suspeito que esse hábito cada vez mais freqüente esteja alargando meu ouvido interno e isso não pode ser bom.
Como se pessoas não atrapalhassem o suficiente, elas trazem consigo animais. Não entenda errado, sou uma grande entusiasta do mundo animal e detesto maldade contra bicho. Mas pelo amor de Alá, os que vivem por essas bandas são anormais. Todos sofrem de transtorno obsessivo compulsivo. Se latem uma vez, latem para sempre. É como se fosse inaceitável interromper a repetição. Eles também são médiuns. Latem para almas penadas, mais conhecidas como v-e-n-t-o. Dizem que cachorro aprende rápido, mas começo a achar que isso é balela. Pelo menos aqui a teoria é só uma conspiração. Nenhum cachorro tem memória. Todos os dias, o caminhão de lixo passa no mesmo horário fazendo o maior barulho por si só, e toda vez é uma polvorosa. Qual é, eles já deveriam ter se acostumado. Aí, mesmo quando o SLU já se mandou, os latidos não param porque, como você acabou de saber, os cachorros têm toc. O Juca, o mais novo quatro patas da rua, tem todos os problemas agravado por um distúrbio de personalidade bem peculiar. Ele tem certeza absoluta que é a Mariah Carey. É como se ele latisse pra se fazer entender entre golfinhos. Já falei que ele mora exatamente em frente ao meu quarto? Não dá.
Às vezes, eu acho que o meu conjunto é uma amostragem de cidade do interior, como se o IBGE tivesse delimitado a rua como um universo para estudar hábitos provincianos resistentes na cidade grande travestida que é Brasília. Pelo menos duas vezes por semana, o cara das panelas vem nos visitar. Ele não é tímido, não, muito pelo contrário. Ele chega pomposo na sua Quantum mil novecentos e guaraná de rolha equipada com um som potente que dissipa sua voz de locutor frustrado. “Alô, alô, minha amiga dona de casa. Consertamos panelas, trocamos cabos, devolvemos o brilho do alumínio…” Diga-me com quem consertas tuas panelas e te direi quem tu és. Quem, eu pergunto, quem no mundo de hoje não pode ir à loja arrumar a merda da panela? Eu vou tocar a campainha de casa em casa perguntando quem é o infeliz que se fez clientela do doidão do alumínio. Há um tempo atrás, minha mãe acordou desesperada às oito da manhã de um sábado porque escutou alguém chamando por ela incessantemente. “Olgaaaaaaa. Olgaaaaaaa.” Quando ela chegou na varanda, se deu conta do engano. Viu um caminhão apinhado de botijões ofertando “Ó o gááááááááás. Ó o gááááááááás”. É verdade.
Eu confesso que sou uma chata. Em outros tempos, joguei gelo nas crianças (elas têm um lindo jardim carpetado com grama bem tratada, não se usa mais brincar na rua), já acordei de madrugada parecendo Gal Costa depois da bruxaria para repreender uma vizinha (a dona do Juca, adoro essa família) porque ela queria “bater papo” com um paquera às quatro da madruga em frente ao portão. Ultimamente, me amansei. Simplesmente acordo e mudo de cômodo. Quando o barulho é onipresente, como quando o meu pai mandou reformar a calçada da frente e limpar com aquele adorável jato de água (“fulmina sono”, apelidei) as pedras da varanda dos fundos, me resigno ao despertar coagido e ocasionalmente choro um pouco, depois passa. Porém, recentemente perdi as estribeiras e taquei um ovo num jardineiro alheio porque ele ignorou meus pedidos anteriores – e educados, palavra – para abaixar o som no fim de semana enquanto ele lavava o carro. Desta vez, depois da resposta insolente e cretina que recebi, fui às raias da loucura e joguei o ovo. O maldito desviou feito o Bush do sapato. Meu pai zangou-se como Zeus, tivemos rusgas familiares interessantes envolvendo algum grito, resmungos empapuçados de choro da minha parte e a acusação injusta de me comportar como favelada, sem falar no desperdício. Uma tragédia grega.
Com a gritaria, um monte de gente acordou. Quando saí de casa, notei os olhares de reprovação dos vizinhos. Eles, assim como eu, também estavam com olheiras. Dormiram pouco. Pimenta no dos outros é refresco, já dizia algum desbocado da minha família.
Mundo Arrogante