Inevitável que o dia chegue. Nem se eu tivesse morrido. Mesmo se, hipoteticamente, meus ossos estivessem a sete palmos, ainda sim alguém – espero eu – lembraria a data. Aniversário. Escrevo nas primeiras horas do dia. Sim, a madrugada é a primeira a se juntar a mim. Festejamos com uísque, amendoins, cigarros e um filme romântico. Claro, em reverência à decadência, como previu meu irmão a respeito do futuro que me aguarda.
Não gosto de aniversários. Nem dos meus, nem dos outros. Cantar “Parabéns” é tortura; na maioria das vezes me restrinjo a exprimir as vogais da melodia, não todas, somente as primeiras e logo desisto das palmas. As indigestas boas venturas que os outros são obrigados a me desejar não são nada além de indigestas. Agradeço a educação, sei que faz parte da etiqueta, somos programados para executar essa cartilha. Mas dispenso, se for possível. Sorrio, agradeço, mas anseio pelo fim do discurso. Um pouco por achar que essas palavras ao telefone são tão desprovidas de sinceridade e calor como o próprio telefone. Um pouco por ficar desconsertada frente à invariabilidade de respostas da minha parte. “Obrigada. Obrigada. Brigaaaaaada.” Dificilmente alguém me surpreende com sugestões genuínas ou ao menos autênticas. Depois penso que as coisas são assim mesmo, repetidas como aniversários. Aí, me sinto ingrata, mesmo depois de dizer tantos “obrigada”.
Vinte e três anos não fazem enredo para muito escândalo. Inexiste a possibilidade de alegar embaraço social causado pela idade; não tenho rugas – ainda que eu saiba que essa vantagem me acompanhará por apenas alguns cumpre anos a mais; a bebida e o cigarro que hoje uso desmedidamente em regozijo por enquanto não me arruinaram; tenho pela frente uma fatia considerável de eternidade para realizar todo tipo de coisa: pular de pára-quedas; perder tempo com conversas vãs; ir ao Japão; escutar música pop de má qualidade; aprender a usar corretamente o ponto-e-vírgula e não usá-lo simplesmente porque cansei das vírgulas; esperar que os avanços da genética encontrem a cura para o maior de todos os males femininos, o cabelo ruim; me matricular e de fato freqüentar uma academia; não concorrer a um prêmio Pulitzer; aprender a tricotar.
Aspirações medíocres, é notório. No final das contas, todo esse tempo parece um monte e não estou muito segura do que fazer com ele. Muito tempo desconsiderando todas as eventuais hipóteses de morte prematura.Desculpe a morbidez. É reflexo do avanço da idade em direção a extremidade da vida, que de fato é a morte. Hum. Essa tentativa de filosofar a respeito do efêmero me cheira a ressentimento e pensamentos vulgares. Fujamos dessa diretriz.
De fato, existem vantagens em fazer aniversário. Eis algumas:
- Liberdade de um dia para ser absolutista, autoritária, totalitária, mimada e respondona (tudo o que eu faço o ano inteiro, mas só aturam de bom grado um mísero dia por ano);
-Ganhar presentes, ainda que essa vantagem venha muito tímida no meu dia pelo simples fato de janeiro ser um mês controverso para aniversariantes do hemisfério sul já que todos estão longe, não importa quem se locomoveu. Ninguém nunca dá presentes uma semana depois, que dirá um verão;
- Dura apenas um dia.
Ok. Rebati todas as vantagens com argumentos pequenos e mesquinhos, mas hey, hoje eu posso.
O que eu realmente gostaria de ganhar de aniversário é agonia. Tenho sentido imensa saudade dela. Agonia, no meu caso, é diretamente proporcional a produção. (Agonia como esta que sinto agora e me mantém desperta até as 4 da manhã.) Como ao longo dos vinte e dois resolvi definitivamente diversas agonias, fiquei sem muitas aspirações para os vinte e três. Fiquei sem ter o que resolver. Sem problemas. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas é verdadeiramente um saco não ser alma atormentada. Manifesto estreito apego a algumas tradições, não posso deixar de reclamar disso, claro. Portanto, senhoras e senhores, me dêem problemas de aniversário. Regalem brigas conjugais – devidamente acompanhada de um cônjuge, chega de monólogo; me presenteiem com dúvidas a respeito de Deus e do Diabo (respondam também porque o Diabo é articulado e Deus, não); proponham todo tipo de discussões literárias, cinematográficas e seriais, de preferência apimentadas com opiniões que refutem as minhas; denunciem políticos, ou seja, me estendam um copo de cólera; me concedam um pouco de delírio, pois há muito venho invejando os loucos, os que ouvem vozes, os que caminham e não sabem para onde; aos meus amigos céticos, façam-me o favor de provar que o romance morreu, que adoeci porque perdi a campanha de vacinação e contraí o vírus comedium romanticum ao entrar em contato com cinema infectado, vamos brigar a respeito disso; repassem um pouco de riso histérico e doentio, desses que incomodam pessoas sentadas à mesa vizinha; se for de preferência presentear algo material, gosto de chapéus, sapatos peculiares e passagens aéreas internacionais. Destino? Tanto faz. Quero a chance de gastar todo esse tempo que tenho pela frente matutando coisas mais interessantes do que as coisas que têm cruzado a minha cuca ultimamente. Um brinde ao contrário do ego, por si só, um gesto de estranheza e generosidade no dia do meu próprio aniversário.
Perdoe a eloqüência e esqueça a verborréia. É que envelheci e nós, mais velhos, ficamos emotivos à toa.
Mundo Arrogante
5 Comentários
24, Janeiro, 2008 às 5:18 pm
Baby baby,
Minha confusão temporal quaaaase me faz passar batido pelo seu dia mais feliz (or not so much). Foi necessário, vc me chamar pra entrar aqui pra ver o TEXTO ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO, eu discutir com uma amiga (a Milena) sobre o fato de ser incapaz de me localizar na linha do tempo e nas caracteristicas climáticas da região sudeste… Derrepente, PLIM, goshhhhhh!!
Cremosidadeeeee parabenssssssss!!! Que você continue essa coisa tesuda, gostosa, deliciosamente ácida e dona de um nonsense de humor felomenal!
Moooooorro de saudade! Felizmente no seu outro dia do ano, você estará aqui pra gente prospectar na festa da faap! Woooooooooooo
Maior saudade, chegue logo!
LOUCAMENTE!!!
Goku
Ps: Quer agonia? Consigo pensar numas 2 agonias pra vc ter o que pensar nos 23 anos.
hoho!
Ps2: Mesmo demorando 17 horas pra me tocar, fui o primeiro melhor amigo a passar por aqui! woooo
Beijaaaaaaasso baby!
24, Janeiro, 2008 às 7:55 pm
Rirocas,
Parabéns pela incrível façanha de aprender a usar o ponto e vírgula. Um feito admirável – o qual eu busco há pelo menos 20 anos.
Agonia tenho de sobra. Talvez se você respondesse meus e-mails, atendesse minhas ligações eu poderia lhe fornecer um pouco… vírus agônicos-agonizantes tenho vários.
Deixe de ser deslavadamente mentirosa. Você sabe muitíssimo bem que seus amigos te aturam o ano inteiro justamente por ser ranrinza e mal humorada. Não diga que é só no seu aniversário. Tanto que no dia que você teve a péssima idéia de escrever uma auto-ajuda-de-bom-humor-cor-de-rosa para inaugurar seu primeiro blog (viu como as coisas ficam marcadas?) todos os seus amigos reclamaram.
Ariadne é ácido até no nome. Portanto não rima com açúcar, rima com limão.
Acho paia que na minha correria durante o dia de hoje eu perdi o lugar de primeiro post >.<
Eduardo Goku, o maldito Dudu, passou na frente. Só o desculpo pois, além de saudade, ele é um querido Robin e um dos Lolitos mais fofos que já conheci
Não lhe desejei nada além de feliz aniversário, Riris, também acho chato o discurso fático da data fatídica.
Mas desejo, não para o seu aniversário, mas para os dias que seguem, que você realmente tome vergonha na sua cara jovem e venha a minha casa me entregar meu presente. Claro que não tenho nada para você, estou pobre. Mas sempre posso te ceder a minha deliciosa personalidade para te entreter por alguns minutos.
Beijos, bitch.
24, Janeiro, 2008 às 7:56 pm
Ah, considerando que eu leio e comento todos os seus posts sem você nem sequer precisar me avisar que postou, seria no mínimo educado você fazer o mesmo nos meus blogs. Rola uma lidinha e comentário ou tá difícil?
25, Janeiro, 2008 às 6:23 pm
Riris,
Não posso te ajudar muito. Te liguei e dei parabéns. Fiquei nesse mesmo âmbito dos demais mortais.
Mas eu tava pensando aqui: pelo menos nas suas últimas horas aos vinte e dois, as risadas histéricas, as discussões infindas sobre qualquer assunto, e as promessas de nos vermos mais eu cumpri.
Para quê agonia, gata? Aceite o seu mau-humor com bom humor. Eu descobri isso há algum tempo e tenho me divertido. Eu adoro meu mau-humor e sarcasmo.
E relaxa: seu cabelo tá lindo o suficiente. Não espere as últimas tecnologias capilares se tornarem comerciais para você balançar o cabelo e encantar nós homens; ’suckers’ por cabelos ao vento.
E obrigado pela dica do ponto e virgula.
Um beijo!
9, Maio, 2008 às 4:53 pm
Como tomei conhecimento de seu blog bem depois do seu dia mais que extraordinário… considero-me apta a escrever:
“Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida. Eheheheheheh”
Ouviu as palmas, embaladas por melodia do axé music?!? Eu sei que você adora…
bjos