7, Fevereiro, 2008...2:54 am

Sobrevivi

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Nunca tive medo de avião. Sempre fui lá, check-in, excesso de bagagem, entra na geringonça e vai parar do outro lado de algum lugar. Ao contrário, pela tradição arbitrariamente imposta por meu pai sempre passei alguns perrengues percorrendo milhares de quilômetros de carro (minha vida é andar por esse país), portanto, por toda a vida invejei amigos cujos pais não fossem entusiastas das estradas brasileiras. Muito mais prático, menos cansativo, umas horinhas nas alturas e voilà!

O histórico da minha mais nova esquisitice é notório. Depois que o avião da Gol caiu, confesso ter ficado um pouco apreensiva com a descoberta da desorganização, ou melhor, do caos do espaço aéreo brasileiro. Realmente foi um acidente terrível, mas acreditei que as medidas tomadas fossem resultar em uma melhora expressiva. Depois, veio o acidente da TAM. Poxa, eu confiei nos caras. Tolinha. Aquela imagem do avião espatifado contra o prédio, ambos em chamas, nunca mais vai sair da minha cabeça. Eu olhava para a televisão e não conseguia me dar conta de que aquilo tinha acabado de acontecer. Novas histerias ajudadas pela competência dos meios de comunicação. Depois vieram as revistas, os nomes das pessoas, as histórias. Fiquei abalada. De repente senti compaixão – sentimento por mim sempre evitado visto que ele impossibilita que eu seja útil a quem sofre (Kundera me ensinou, nunca mais esqueci). A partir desse momento, comecei a sentir medo e nunca mais viajei de avião.

Ok. Também não tive a oportunidade. Eis que ela surgiu agora, no carnaval, quando fui realizar o sonho antigo de desfilar em uma escola de samba (sobre os delírios oferecidos pela cidade maravilhosa, aguarde, estou incubando). No Rio, eu encontraria meu irmão e uma amiga, que iriam comigo para a Sapucaí. O deslocamento em si, esse, para a minha infelicidade, teve de ser feito na solidão. Fiquei um pouco nervosa na véspera, mas achei besteira perder o sono com isso, então tomei um tarja preta. Entrei no avião apreensiva. Abri o novo livro do Woody Allen – neurótico por neurótico, prefiro ser influenciada por um de autoridade – e fiquei me enganado, me achando super descolada e destemida. Imagina, nem estou com medo, como sou besta. O avião nem está chacoalhando. “Tripulação preparar para a decolagem.” Droga.

Ah, o ar. O avião furando as nuvens, desvirginando o céu. Maldito, nem vai ligar depois. Estamos voando em ângulo reto? Olha, estou achando isso aqui muito vertical. Não paguei para ir fora de órbita. Continuei a leitura, disfarçando o fato de todos os meus órgãos estarem trocando de lugar. Muito bem, estabilizamos. Parei de suar feito um churrasqueiro. Passamos alguns bons minutos. Ah, não. Eu quero chegar ao Rio para começar a sambar. Um sinal sonoro indica que a chefe de cabine irá dar um aviso digno de um palavrão: “Senhoras e senhores, pedimos que permaneçam sentados com os cintos afivelados pois estamos passando por um local de instabilidade.” Instabilidade mental minha, só se for. Nessas horas, você começa a apelar para atitudes infundadas e inúteis como segurar mais forte o encosto, afundar na poltrona, não parar de se mexer, cobrir o rosto com as mãos. A desvantagem de viajar sozinha é que você não pode agarrar o braço da pessoa ao lado sem que ela pense que você é retardado. Tentei me distrair ouvindo música, mas a primeira da lista era “Crash Into Me”, do Dave Matthews. A segunda, “Let’s Fall in…”, nem consegui ler o resto. Eram sinais mórbidos demais ou infortuna seleção musical. Desisti da música. Contive um choro no canto do olho. Os outros passageiros antes tranqüilos agora estavam incomodados e acredito que a culpa disso repousa exclusivamente em mim. Medo pega e não tem vacina. Felizmente, uma mulher sentada do outro lado do corredor partilhava da minha insegurança e começamos a conversar sobre fobias em comum e, vejam só, ao discorrer sobre acidentes anteriores não vi o tempo passar. Pouco tempo depois, jogaram a ração aos passageiros e, entre um amendoim e outro, pousamos. Grande alívio estar em terra firme.  

O carnaval carioca é excepcional. Eu não queria que ele acabasse nunca, primeiro por ser tudo muito fantástico e divertido, segundo porque, uma vez acabada a festa, eu tenho de voltar ao aeroporto e entrar no baú da morte incerta novamente.

Ariadne, não seja estúpida. O vôo de volta será ótimo. Você deu azar na ida.

O céu no Rio de Janeiro amanheceu negro. O céu em Brasília nunca mais verá sol nessa década. Excelente prognóstico. Desta vez, entrei obstinada a superar qualquer acesso de pânico. Abri outro livro e me concentrei. Uma senhora ao meu lado me desconcertou logo em seguida, pois estávamos prestes a levantar vôo e ela não encontrava o celular para saber se ele estava ligado ou não. Mau presságio. Meu Deus, esse aparelhinho dos diabos vai tocar em pleno ar, uma interferência fatal confundirá os radares e computadores de bordo, os motores serão automaticamente desligados e vamos morrer. A neta da energúmena senil procurou por todos os cantos e constatou que a memória da velha estava de fato se deteriorando e que ela havia esquecido o celular no banheiro do Galeão. Avante.

No ar, enquanto subíamos rumo à Lua, li onze vezes a mesma frase sem entender absolutamente nada porque eu já havia sucumbido ao terror da turbulência. Se a ida tinha sido ruim, a volta prometia superar qualquer expectativa. Repetido o ritual de pânico da ida, suor, inquietação e expressão de abismo, não consegui parar de me sentir ofendida pelo letreiro luminoso indicando a saída. Pára, eu vou descer. Isso é uma emergência, por favor, abram essa porta. Alguns minutos depois, a eternidade de 3 segundos oscilando entre diferentes alturas foi demais para mim. Pobre do meu Santo Expedito portátil: foi esmagado com toda a força que meus dedos puderam produzir. Depois de dois novos avisos de “instabilidade”, não pude mais me controlar e comecei a chorar. Sim, eu chorei. O rapaz ao lado quis ser gentil, me perguntou se eu estava bem, mas não consegui responder nada, só balbuciei negações e virei o rosto para tentar esconder o choro. Nisso, deram início ao serviço de bordo, que logo foi interrompido por mais turbulência, sacode daqui, balança de lá, eu em completo pânico e hipoventilação (se é que isso existe). O comissário de bordo ficou com pena de mim e, sem se preocupar em me deixar com mais vergonha, me ofereceu um lenço e sua mão. Agradeci e aceitei os dois. Chorei copiosamente, em silêncio, por 40 minutos. Agora, revivendo tudo, me sinto uma idiota perfeita, mas, honestamente, acho que é isso que sou e não sei fazer diferente. Onde já se viu medo de avião adquirido? Pois Fausto salvou minha vida. Belo nome esse, Fausto.

Na ausência de tarjas pretas à mão, engoli quatro comprimidos de calmantes fitoterápicos que me deixaram torpe e preparada para terminar a viagem. Avião no chão – de onde ele nunca deveria sair –, sequei o rosto, esperei os afobados saírem e abracei Fausto. Ele sorriu e minha sina pagã terminou. Isso, claro, até o próximo carnaval.

Mundo Arrogante  

5 Comentários

  • Ahhhhhhh Baby! medinho de avião huney?!
    Turbulencia decolagem e aterrisagem são as partes mais legais e vc perdendo tempo chorando?! Isso pq nunca caiu uma mascrinha de oxigenio em mim… Sabe… Dizem que oxigenio puro da barato… Hmmmm mal posso esperar pra provar!
    loucamente!
    ta chegando!

  • Blé, Dudu. Shut tha fuck up! >/

    Rirooocaas!! Vem cá! Segura minha mão!
    Por isso que eu digo, o canal é ir de navio. Perceba que até o campo léxico disso faz sentido.

    O percurso de terra vamos de trem, daqueles mais saudosistas dos anos 20, sempre na possibilidade de poder ser assaltados por um grupo sexy de cowboys cheios de jargões hollywoodianos.

    Agora que tudo deu certo, que tal um novo post falando mais sobre o Rio? Não é possível que da sua viagem só tenha restado as 3h de vôo!

    Cadê as fotos? Quero te ver de tapa sexo! O seu caiu?

  • Segura o Fausto! Hehehe

    Bjoss Riris!

  • Éééé, Riris…
    Imagina se voce tivesse que ir de carro? Seriam 12, 14, 16 horas de viagem? Ou seja, muitas horas de turbulencia, céu negro, terror, agonia e muitos morivos pra entrar em panico com os inúmeros acidentes que viriam a sua memória. hehehehe. Quer um lenco, ou a mao? Ou como disse o Vava, segurar o Fausto?
    hehe
    bjo

  • Eita!!!!
    Só falta dizer que não é bom sentir um pouco de adrenalina?! Olha pelo lado bom, pelo menos te rendeu uma história emocionante para o blog…
    Hoje, 09 de maio de 2008, e kd a Riris?????

    Riiiiiiiiiiiiiris, kd tu mulher????!!!!!

    Hehehehehehehehehehehehehe!

    Bjos


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