Chovendo. Parece gracinha da meteorologia. É a terceira vez consecutiva que vou ao Rio e chove. Cheguei lá pelas duas da tarde. Até então, fazia um lindo dia de fevereiro. No momento em que chamei o taxi no aeroporto, pronto!, um dilúvio bíblico se armou nos céus e a Cidade Maravilhosa ficou alagada durante todo o carnaval. Viajei animada diante da possibilidade de ir à praia e acabar com a ilusão que as pessoas têm de que sou branca. Essa cor com a qual circulo por aí é uma farsa; essa cor é signo de temperamento taciturno e alérgico a sol (mentira, só não me apetece trajar roupas de banho e suar esperando o bronze).
Fui ao Rio realizar um sonho antigo: desfilar em uma escola de samba. Até onde minha memória alcança, assisti aos desfiles durante toda a minha vida. Posso lembrar com minúcias de estar deitada em um dos colchões alojados na sala de casa, minha avó e tias-avós, minha mãe e meu irmão rodeados de comidas preparadas por elas com esmero, olhos vidrados na televisão esperando os desfiles começarem. A farra ia até de madrugada, era bom. Essa tradição construiu algumas das melhores lembranças que tenho. Minha avó ovacionando a Beija-Flor e insultando a Mangueira, eu e minha tia Heloísa ofendidas e defendendo com unhas e garras a Verde e Rosa. “A Mangueira é uma pobreza; verde com rosa é muito brega. A Beija-Flor é rica! Rica! Um luxo!”, dizia Vegas (pra quem não sabe, assim chamo minha avó), gesticulando cinicamente para nos irritar. Ela faz isso até hoje. Ademais, compensava o fato de, já adolescente, não participar das folias na vida real.
Quando meu irmão me convidou para ir com ele e com uma amiga, aceitei na hora. Não vi detalhes, não cuidei de nada. Inicialmente, a idéia era desfilar na Mangueira, mas eles gostaram mais do enredo do Salgueiro, que homenageava o Rio (O Rio de Janeiro Continua…), então aceitei. Contanto que não fosse a máfia do Neguinho e suas correntes 400 quilates, para mim estava tudo perfeito. Para ter noção da minha negligência, não sabia qual era a fantasia até dois dias antes de viajar. Oh, displicência inoportuna. O que me aguardava era, para dizer o mínimo, sacana.
Para fechar o círculo perfeito do turismo carnavalesco, a geografia de Copacabana foi o lugar escolhido para acolher a foliona que vos fala. Tudo o que consigo sintetizar de Copacabana é reminiscência. Continua sendo Copacabana porque um dia foi aquela Copacabana. Aquela onde a crônica foi perpetuada, onde a bossa das calçadas da beira-mar virou estilo de vida, onde os aristocratas da Guanabara perderam fortuna mas conservaram a pompa e duas ou três jóias de família, onde o Rio virou exportação e exploração. Copacabana tem seu cheiro particular e nem sempre ele é bom, mas é próprio de lá. Caminhar pelas ruas me faz lembrar uma porção de histórias minhas sem mim. Sou posseira dessas histórias. O Rio que eu gostaria de ter feito parte começou ali. Hoje, carrega aquela decadência da terceira idade: Copacabana é a grande senhora e é preciso respeitar os mais velhos.
De acordo com os cariocas, a graça do carnaval de lá não é o desfile das escolas e sim os blocos de rua. Realmente, é emocionante aquele tanto de gente suada e bêbada destronando os carros do posto de rei da rua. A música é da casa, portanto, excelente. Sempre fico emocionada quando tocam os sambas antigos, todo mundo cantando, sambando na rua. O Rio parece feliz em suportar os entusiastas nas ruas. O Rio foi feito para esse absurdo, mas parece que outras formas de ultraje têm obtido mais êxito na manutenção diária.
Normalmente não reclamo de tempo chuvoso, mas no carnaval, no Rio, sendo turista e essa viagem tendo saído os olhos da cara, a chuva me irritou. Primeiro porque ela não alivia em nada o calor de estar cercada por uma multidão de homens travestidos e mulheres desvestidas. Eu passava por entre as pessoas tentando reduzir ao máximo a superfície de contato, tenho horror de roçar em gente melada de suor. Segundo porque meu cabelo vira um guaxinim. Já é difícil competir com mulheres de Ipanema. Se eu pareço uma empregadinha de Bangu, fica pior ainda. Fiz a fina e fingi que estava de peruca. É carnaval, oras bolas! Tudo é possível.
No dia do desfile, as fantasias foram entregues no hotel. Quando descemos para buscá-las no saguão, juro por Deus, cogitei desistir da aventura. Somente em hipótese de níveis severos de álcool no sangue eu teria coragem de sair em público usando aquilo. Era um desastre laranja estridente e verde ofuscante. E penas. Muitas penas. Vou tentar explicar. Nos pés, um chinelo vagabundo de tiras laranja. Nas pernas, cortinas presas com velcro. Um tapa-sexo para cima outro para baixo, ambos em laranja tom pesadelo. A pneulândia toda de fora. Um cinturão que não cobria nada. Um colete pinicante. Por cima, uma toga ou qualquer coisa parecida, com a estampa do calçadão de Copacabana, com dois guarda-chuvas penados por cima dos ombros, o que impedia qualquer tipo de movimento do braço em direção ao tórax. Nos braços, braceletes e mais cortinas. Por fim, mas não melhor, o chapéu. Acho que de tudo, o pior era o chapéu. Outro guarda-chuva plumoso sobre uma antena presa no casco. Isso ia à cabeça. Peso. Muito peso. Naquele momento, senti inveja das gostosas que desfilam peladas. Ironicamente, para uma foliona tão irritada, a ala da fantasia se chamava Ala da Simpatia.
Tive de encarar essa parada. E encarei sem o álcool. Uma vez disfarçados, nos dirigimos para o elevador. Rá rá rá. Crises de riso histéricas porque as plumas eram tão altas e as fantasias tão volumosas que quase não coubemos juntos lá dentro. No hall do hotel, mais uma humilhação: turistas americanos sacaram suas câmeras de alta definição e nos fotografaram loucamente.
Diálogo com a negona americana 2×2:
- Can I take a picture of you guys?
- Sure, go ahead. We look ridiculous anyway.
Neste momento, tenho certeza absoluta de que alguém no Bronx está rindo muito de mim. Muito bem, saímos para achar um taxi (desistimos de ir de metrô, imagine o porquê). Piorou. Na calçada, viramos atração local e não só americanos como turistas da Pangéia se aproximaram, nos abraçaram, tiraram fotos, arregalaram os olhos. Agora, não só no Bronx, mas na Tanzânia, na Guatemala e na Nova Zelândia tem gente rindo de mim. Brasileiros são tão exóticos… Chegou um ponto que quase dei uma de malandra e cobrei 5 euros por clique. Achamos um taxi tamanho GG e partimos para o Sambódromo.
Quando contei para as pessoas que eu iria desfilar, algumas delas me disseram que o melhor era a concentração. Depois que cheguei lá, não entendi por quê. Estava esperando um esquenta da escola, sambão no pé. O que acontece é que você se alinha com os seus – lá se perde o conceito de ridículo – e espera. Por dificuldades de vestimenta já descritas, fumar era difícil, beber era mais ainda. Eu também não queria chegar embriagada na avenida, queria lembrar o momento com todos os detalhes. Duas horas de espera e chegou a hora. Começamos a andar, o samba-enredo estava em todas as caixas de som da Sapucaí. As coisas acontecem de forma engraçada. Enquanto você está parada, nada acontece com a fantasia. No momento que foi dada a partida, todos os velcros se soltaram. Então, lá estava a brasilienses andando, meio sambando, meio consertando as cortinas do pé ou as fivelas da sandália, meio cabisbaixa porque o peso do chapéu distorceu suas feições e sua sobrancelha ficou bem próxima do queixo. Muita calma nessa hora. Ok. Tudo certo.
Entramos na avenida. Todas as luzes estão viradas para nós. A música já invadiu tudo. Há uma chuva caindo fina e insistente, mas não importa. E daí que o chão tão liso escorrega sob os meus pés? Estou na avenida e daqui eu só saio quando o carinha do apito gritar irado comigo (o que aconteceu em seguida).
A orientação dos coordenadores de ala é que você mova a boca toda hora, não importa se não sabe a letra toda. Óbvio que eu não sabia a letra inteira, o que me fez virar várias vezes para o meu irmão para ele me passar os versos, mas ele também não sabia uns pedaços. Então, quando chegava o pedaço crítico, eu ficava balbuciando vogais, tipo lá lá lá lééééé liiiiiiii ôô uuuuuu. Até onde sei, ninguém percebeu.
Lembro de tudo e de nada. Não me lembro das pessoas em volta, em momento nenhum pensei em ver se as câmeras da Globo estavam por perto, não reparei em camarote vip nem na ala do povão. O que sei é que quando passei na frente do recuo da bateria, meu coração bateu ritmado com os repiques e tamborins. Ali, naquele momento, conheci o êxtase. Não há meios de explicar o que são esses minutos. Passa rápido demais. Quando nunca mais queria sair, quando já estava dando meia volta para fazer o percurso inverso, acabou. E fiquei parada na dispersão em meio ao tumulto dos outros passistas, abismada. Claro que, quando recobrei consciência, a primeira coisa que fiz foi me livrar de todo o excesso de volume e depositá-lo no lixo. Sobrou-me o que garantiria a cobertura das minhas vergonhas na volta para casa. Esperei a bateria sair, enfiei-me no meio dela e celebrei um dos melhores vinte minutos da minha vida. Era meu jeito de agradecer pelo “carnaval na vida real” que tanto invejei pela televisão.
Entendo que os folclores dos países encontram amantes e inimigos indiscriminados na população. Compreendo como é irritante que, de certa forma, o carnaval brasileiro tenha resumido a totalidade de nossas potências como povo, fazendo parceria com o futebol na exportação de nossa imagem dentro e fora daqui. Mas aí penso que talvez nós é que tenhamos nos acostumado a pensar que esses são os limites da identidade nacional, somente até aí somos bons. Daí o ressentimento que tanta gente tem com o carnaval, daí o rechaço. Eu não nego os aspectos negativos e depreciativos do carnaval, mas assim como Brasil não é só mulata na avenida e as pernas tortas do Garrincha, carnaval não é só isso. É uma deliciosa e impressionante catarse. Saí do Rio de alma lavada. Saí da avenida orgulhosa de ter feito parte desse profano, desses desenganos de três dias. Três dias é o tempo que temos o direito de não ligar para nada e simplesmente aproveitar o espetáculo, no ócio ou no tumulto. Depois disso, é preciso se importar. Depois disso a festa acabou, olá mundo arrogante. Mas todos os anos, para agüentar as mazelas de um mundo menos colorido e sem fantasias, na quinta-feira renascemos das cinzas de quarta.
Ano que vem eu volto.
Mundo Arrogante
8 Comentários
4, Março, 2008 às 5:06 pm
hauahuahuahauhau =]
ri e mais com essa historia!
com certeza deve ser uma emoção inesplicavel!
vc devia ter cobrado pelas fotos!hauhauahua
bjoo
4, Março, 2008 às 10:01 pm
Eu tinha certeza que você tinha usado um tapa-sexo!
Ô, Riris, mas diz aí: tem foto?
11, Março, 2008 às 5:18 pm
Kd as fotos?
hahahahaha
12, Março, 2008 às 3:31 pm
“Eu passava por entre as pessoas tentando reduzir ao máximo a superfície de contato, tenho horror de roçar em gente melada de suor. Segundo porque meu cabelo vira um guaxinim. Já é difícil competir com mulheres de Ipanema. Se eu pareço uma empregadinha de Bangu, fica pior ainda. Fiz a fina e fingi que estava de peruca. É carnaval, oras bolas! Tudo é possível. ”
caralho velho, ri de mais imaginando essa cena!!!
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk =D
15, Março, 2008 às 11:27 pm
Riris,
Cirte esses sites:
http://mundoarrogante.com.br/
http://www.cronopios.com.br/
O primeiro lançou o primeiro festival de “Contos Arrogantes”.
O segundo trata de literatura em geral, muito bom por sinal.
Vale a pena ver.
Bjos
16, Março, 2008 às 11:59 pm
Mto bomm!!!Ainda mais comigo lendo né?!Heheheh!!!Vai dizer!Pooo…mto boas suas crônicas!Até coloquei nos meus favoritos =) Bjinhusss
25, Abril, 2008 às 12:14 pm
Ririzelda, adorada, idolatrada, salve! Salve! Vou “inaugurar” meus comentários cítricos e ácidos por aqui. Falou de Rio e de carnaval, merece meu respeito. Tecerei, em homenagem a meus confrades e confreiras cariocas alguns comentários pertinentes a respeito do seu magnífico relato.
First of all: “No momento em que chamei o taxi no aeroporto, pronto!, um dilúvio bíblico se armou nos céus” – Já pensou em levar sua pajelança grega ao sertão nordestino???? (não é comentário, só sugestão)
Going on… Ver o desfile das Escolas de Samba (isso mesmo, com letras MAIÚSCULAS) é um evento familiar único. Concordo. Fazia o mesmo (e olha que morei ao lado da quadra da Imperatriz por 20 anos). Aventurar-se a percorrer os 800m da Sapucaí, coberta de tecidos vagabundos, cheios de coisas que pinicam e costurados num formato totalmente amorfo, é suicídio social (a não ser, é claro, que você tenha o corpo da Juliana Paes e esteja ganhando uns trocados para ir em cima de um carro alegórico).
O grande momento do desfile começa quase um ano antes: na quadra da Escola. Rodeada por seres suados e com cheiro de cerveja choca, aguardando a escolha do samba-enredo do ano seguinte e comentando os créditos dos compositores preferidos ( “ahhh mas o do Paulinho Boca-de fumo é muito melhor que o do João fura-olho”)… E ao final de uma noite de muito barulho, brigas, suor e cerveja Kaiser morna… o enredo vencedor agita a turba ensandecida e mal-cheirosa quando é anunciado: “ O fantástico mundo de Nabuco Donosor e a construção do glorioso Jardim Suspenso do Pantanal mato-grossense do século 21”. Aquela sim… é a euforia do verdadeiro folião.
Desfilar numa Escola de Samba é achar a fantasia laranja e verde UMA GLÓRIA do estilismo. É ir à pé do hotel em Copacabana até a Marquês de Sapucaí, para poder tirar fotos com todos os turistas estrangeiros e parar 89 vezes no caminho pra tirar uma “fotinha” na frente do Canecão, do Iate Clube Guanabara, da Praia do Flamengo, do Aeroporto Santos Dumont, das barcas na Praça XV.. e em cada uma delas fazer uma pose “engraçada” e aproveitar pra por um chifrinho no amigo ao seu lado.
Desfilar numa escola de samba é sambar com exagero hercúleo na frente das câmeras da Globo, é ter o samba na ponta da língua de cor e salteado, é chegar da Sapucaí às 5 da tarde de sábado pra desfilar às 4:20 da manhã de domingo e entrar na avenida com o mesmo entusiasmo com que compareceu à Quadra, há um ano para a escolha do enredo.
São tantos pequenos detalhes que glorificam e enaltecem a performance do típico folião, que eu teria que escrever um blog dentro do seu blog para explicar as sutilezas e agruras que envolvem essa prática tão difundida na cultura carioca. Só mais uma dica: “tenho horror de roçar em gente melada de suor”, Ó ILUDIDA FOLIÃ OCASIONAL!!! Abra seu coração! Permita que o verdadeiro amor à Escola e aos seus valores afro-descendentes penetrem (com camisinha, por favor) em seu “corpitcho” mediterrâneo, sob a pena de NUNCA poder usufruir do prazer libertino, total e repleto de orgasmos auditivos múltiplos, que só quem cheirou sovaco de cobra na Vila Vintén (Padre Miguel- RJ) ou participou da buchada de bode comunitária no morro da Mangueira sabe valorizar.
Bem, caríssima Zelda, cumprimentando-a pelo talento poético, ortográfico e gramático despeço-me sem mais delongas (ou… TU ESCREVE BEM PRA CARÁI, VÉI!!!).
Antes de você partir a saudade de sua loucura já é uma realidade…. :/(
beijeca!
25, Abril, 2008 às 12:22 pm
Menina, sua vida é uma novela!!!!
Só para desmistificar, sua risada nunca foi ou é: RáRáRá… ou HAHAHAHAHA…
É sempre:
IIIIIII… e um tempo gigantesco de nada, mudo…
O que é sempre legal ouvir…
Bjos