Depois de ver as fotos do aniversário de 50 anos da minha mãe, fiquei um pouco deprimida. No espelho, eu estava refletida tão agradável, mas acho que a gente vê o que convém. A iluminação do meu banheiro foi pensada para ser pró auto-estima, de forma a dar falsas impressões de beleza. Pelo menos é isso que as fotos indicam. Fiquei me sentindo como a bruxa da Branca de Neve. O espelho me traiu.
Depois de um drinque ou dez e inebriada pelo entusiasmo de fazer festa em família, inventei de dançar macarena com os outros consangüíneos que se juntaram à decisão de me humilhar publicamente. O fotógrafo, engraçadinho ele, achou que valia registrar meus moves. As fotos não são bonitas.
Meu tomara-que-caia, que obviamente achei lindíssimo na loja e uma vez depois, virou tomara-que-você-se-toque-e-vá-cobrir-o-excesso-de-pele-que-está-pulando-pra-fora. Juro. Para a minha felicidade, quando o fotógrafo finalmente trouxe as fotos para vermos pela primeira vez, a família e alguns amigos estavam na minha morada, o que expôs o toicinho palpitante, diria até dançante, assim, escancaradamente, sem eu nem ter a chance de bloquear a foto ou levá-la ao spa Photoshop antes. Fiquei absolutamente indefensável e tive de aguentar todos os dedos apontados para os meus excessos. Em uma tela de 70 milhões de polegadas, você não pode imaginar como é difícil ignorar certas coisas.
Decidi então fazer uma dieta. Esse bacon nas minhas costas tem de sumir.
Para abater o suíno, montei um esquema brilhante de malhação sem custo. Resolvi aproveitar minhas tardes sempre livres para caminhar perto de casa. Três vezes por semana (desde essa segunda), invariavelmente, caminho 8 km. Por mais estranho que pareça, abracei a causa e não inventei desculpas para deixar para o dia seguinte. Enfiei meus tênis, surrupiei do meu irmão um short Adidas muito apreciado pelo público indígena, peguei o mp3 player e para rua lá fui eu.
No primeiro dia, pensei bastante na vida, ensaiei trotar, mas meus pulmões exauridos me imploraram que parasse. Sem problemas, respeito meus limites. Como não sou dada a comportamentos atléticos tradicionais, nos últimos quilômetros, engatei Rolling Stones no player e dancei na rua mesmo. Um caminhão buzinou e vi pessoas rindo nos carros passantes, provavelmente imaginando que eu estava drogada ou qualquer coisa que o valha, mas não liguei. Isso pode ser bastante liberador. Que bom que voltei a malhar (como se algum dia eu tivesse começado, para então parar e depois poder dizer que voltei).
No segundo dia, segui confiante e certa da minha meta. Sou dessas pessoas cujo humor é altamente influenciado por música. Infelizmente, o playlist que deixei rolar estava contaminado por músicas que falam de amor. Basicamente, músicas sobre um mundo que sente nada além de dor-de-cotovelo e blá blá blá. Claro que absorvi a mensagem. Imediatamente me vi imersa em uma crise emocional, pessoal e, como conseqüência, sexual. Tudo bem, acontece. Todo mundo passa por rompantes desesperadores de solidão e descrença na possibilidade de encontrar alguém com quem resmungar até o fim da vida (ou de simplesmente pegar alguém). Comecei a tecer hipóteses e instituir soluções imediatas depois de analisar minha situação em relação à situação das pessoas que conheço. Eu estava com um plano totalmente bolado na cabeça. Ótimo. Exercitar-se realmente faz bem para o corpo e para a alma.
De repente, olho para o laguinho por onde estava passando e levo um tapa na cara da natureza. Localizo bem no centro da água duas capivaras copulando sem o menor pudor. Achei sem graça, sabe? Dava para ver os bigodinhos molhados se contorcendo de prazer. Parei, me dei ao luxo de ficar em choque com as capivaras gone wild e passei a acreditar que o universo de fato manda sinais para a humanidade. Não bastassem as críticas da minha mãe biológica, aparentemente a Mãe Natureza também despreza meu celibato e mandou a indireta. Bem. Na verdade, foi bastante direto e… explícito. No mesmo dia, comentei o fato com uma amiga e ela disse que uma vez teve de parar o carro no meio da pista que passa sobre o lindo lago do amor porque uma manada de capivaras estava atravessando a pista, rumando para as águas do outro lado. Suponho que nessa noite eles estavam atiçados porque casais de capivaras da outra metade estavam dando uma swingers party.
Não sou voyer. Saí de perto do pornô selvagem o mais rápido possível e tentei voltar aos trilhos. Mas quais eram as chances de ver o que vi no exato momento em que estava refletindo sobre o patético da minha vida privada?
Aturdida, terminei a caminhada, dessa vez sem dancinhas nem olhadas para o lado. Para dizer a verdade, quando passei novamente pelo local do atentado ao pudor, decidi que seria um ótimo momento para começar a correr.
Não quero mais essa vida de cão. Quero vida de capivara.
6 Comentários
27, Junho, 2008 às 5:20 pm
Hauauhauhauahuauhauhauhua
Cresci ouvindo a minha avó falar “Toicinho”.
Ela sempre falava para os netos: “venha cá, meu filho, deixe vocó ver como voce está! Ihh, tah com o toicinho fino, fino… Vá alí pedir p Elaine fazer uma coisinha pra vc comer, vá!”
Pensei que fosse somente ela que usasse o “toicinhômetro” pra medir a saúde das pessoas.
Mas, e aí, o toicinho já baixou?
uhauhauhuhauha
No mais, parabéns pelo texto.
Cada vez se superando mais.
Bjo
3, Julho, 2008 às 12:29 am
Ai!
Quanto ao “andar 8 kilômetros”… O carro foi a melhor invenção do mundo.
A respeito das tardes sem nada pra fazer… Meu bem, me liga! Vamos fazer compras!
Sobre as músicas que te deixam deprê… Tristemente concordo. Enquanto lia seu texto quase coloquei Vanessa da Mata pra ficar na fossa junto, mas como dizem por aí: “Last night a DJ saved my life!”
É isso… Minha academia também foi pras cucuias pq eu cheguei a conclusão que não tenho papo com “barbies”.
E arrasou!
3, Julho, 2008 às 1:36 am
Riris! Que depravadas essas capivaras! Estão mais para capiranhas! Manda a foto pra PlayBoi, eles vão adorar!
Quanto ao seu tomara que caia… Você precisava ter visto o dia que achei que seria féxion amarrar minha encharpe no tronco e deixar a alcinha do sutiã aparecendo… você teria me enchido de pancada. Mas fato é que eu estava me sentindo linda, mesmo sabendo que estava ridícula. O modelito foi para um desfile da Uma, e eu achei que alguém deveria cumprir o papel de “desastre da moda” da noite. Não, gata, não venha com essa, você sabe que todo evento fashion tem que ter um desastre. E bem, sabemos que não sou nenhuma Gisele, mas com algum esforço eu fico um ótimo desastre. Entretanto, não esperava isso de você, não você que tem talento pra ser top.
*anita segura na sua mão e diz: feia, feia, feia. nunca mais faz isso senão a anitinha nunca mais fala com você.
Enfim, meu humor também é extremamente musical, e você sabe disso, dã… vai aí a dica de melhor trilha pra andar/trotar/correr na rua: Bad Religion. Entretanto, tente não levar tão à sério, senão você acaba surrando pessoas na rua como eu faço. E me disseram que isso não é legal.
Au revoir o/~
4, Julho, 2008 às 3:46 pm
Oi Riris!!!!
Depois de meses resolvi passear por aqui… Li todos os posts que eu não tinha lido, comecei no das crianças atééééé aqui em cima! E pra variar, adorei! Entretenimento de melhor qualidade esse blog. Tirando que continuo à distância o curso de como tornar o meu sarcasmo e desprezo pela vida e algo interessante a dizer e como encarar as coisas ruins e boas do cotidiano divertindo as pessoas à volta! Querida, estou com saudades de você! Quando vamos tomar um café acompanhado de 20 cigarros? E a nossa tarde de compras? A Ávida está em liquidação…
Enfim… Queria dizer tb que a Anita tem grande contribuição na minha diversão qd entro aqui, adoro os comentários dela!
Bjos querida!
4, Julho, 2008 às 4:19 pm
Riris,
Seus textos são tão envolventes, que me deixam com gostinho de quero mais… Parabéns! Acredito sinceramente que escolheu a profissão certa.
Engraçado o dom de algumas pessoas loucas – que nem que você – que fazem de um evento típico uma excelente história. Quanto aos fatos incomuns – por que não dizer medonhos –seriam ainda melhores se compartilhados… Poxa! O que eu estava fazendo que não vi nada disso!?
Adoro saber que você faz parte da minha vida…
Sei, estou muito piegas hoje… Acho que é saudade. Tá, eu sei que não combina comigo (TPM ajuda nesses momentos?!!!?).
Contudo, entretanto e todavia, hoje, especialmente hoje, preciso. Preciso não, necessito gritar, berrar por você…
RIRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIISSS!!!!
Tô com saudade. Sniff, sniff!!!
Aparece, né!!!
Bjocas
10, Fevereiro, 2009 às 11:29 am
Hhahaaaahahha… Ariadne, impossível não rir das suas palavras. Seu blog, além de tudo, será terapêutico. :-p E confesso que também “quero vida de capivara”. rs